Mais da vida

Acerola de família

Pai, sua acerola deu novos frutos. Colhi todos um a um, disputando com alguns passarinhos, ansiosos, que teimavam em beliscá-los ainda no pé. Terei que podá-la sozinha este ano. Mas vou seguir seu conselho: esperar os meses sem “R” chegarem. Maio, junho ou julho? Agosto, quem sabe? A árvore está linda, cresceu bastante, derramando seus galhos para os lados. Preferia que ela avançasse em direção ao alto. Mas sobre essa e outras coisas da vida, eu não tenho controle – o que é uma pena, mas reconforta.

Se tivesse me consultado, na época, teria lhe pedido uma jabuticabeira. Linda, com galhos perfeitamente desenhados, uma copa frondosa, flores espetaculares e frutos… hummm, frutos que nunca comi! É, no fundo, acho que fez bem ao plantar a acerola. Gosto do sabor azedinho, embora qualquer lembrança sua ainda seja amarga demais para mim. É difícil suportar sua ausência. Meu coração é saudade que não tem mais fim.

E por falar em saudade, hoje foi dia de faxina lá em casa. Depois de muito tempo com o som desligado, enfim consegui desfrutá-lo com certo prazer. Não ao ponto de ouvir Nelson Gonçalves, Ray Conniff ou música cubana, que eram sempre a nossa primeira opção.

Deixei-me tocar pela voz de Ella Fitzgerald. No embalo de suas canções, descobri um jeito de ouvir sua voz,  e receber seu norte, seu aconchego, sua direção. É a música que você ouvia para espantar as dores, que hoje cicatriza as feridas do meu coração. Esta mesma música, que varria o silêncio da noite quando seu maior desejo era ver o sol surgir de manhã, é que está mandando a tristeza embora daqui. Esta música me fez renascer. Esta música me fez reencontrá-lo, aos pés da nossa acerola, para dançar. De leve e bem devagar, como nos velhos tempos.

Post anterior Próximo post

Você também vai gostar! :)